Existem várias formas de se trabalhar o máximo de aproveitamento do tecido e, uma delas, é pensar na modelagem a partir de quadrados e retângulos. Jorge Feitosa, estilista e professor de moda e vestuário, utilizou essa técnica na co-criação do Moletom Zero Waste, desenvolvido na segunda edição do Trama Afetiva, em 2018. Com a ideia de produzir uma coleção cápsula que gerasse o menor resíduo possível, a peça foi pensada junto com a designer têxtil e de moda, Carmen Manzano. Para fugir de um design pouco atrativo, o estilista trouxe o acabamento das pregas. “É um elemento que deixa a peça mais bonita e quando você veste, mal percebe que tem pregas ali”, afirma. Dessa forma, partes como o punho e ombro foram ajustadas e o capuz, por exemplo, não ficou com um bico para cima da cabeça.
Apesar deste formato ser o mais fácil de evitar sobras, também é possível trabalhar com curvas e utilizar os retalhos para adicionar detalhes, como babados e apliques. Jorge explica que a concepção de utilizar o máximo possível da matéria-prima na modelagem vem do berço: ele nasceu em Santa Cruz do Capibaribe, no Agreste Pernambucano, cidade que tem uma relação com sobras e retalhos de tecidos desde o final da década de 60. “Eu cresci nesse meio, sempre convivi com essa história de produzir em cima da ideia de sobra – dificilmente tinha o tecido com uma metragem pensada”, explica.
Carmen, outra co-criadora do Moletom Zero Waste, aprendeu sobre o conceito ainda na faculdade, trabalhando em um projeto de um blusão que foi feito a partir de pedaços cortados a laser. Com essa experiência, ela pode entender como trabalhar com a modelagem de forma a evitar o máximo possível de resíduos. Porém, a designer reconhece que os programas de computador utilizados para permitir a eficiência no corte, como Audaces ou CAD, são caros e poucas empresas os detém. “O programa otimiza o corte, jogando, automaticamente, todos os moldes da modelagem no tecido de acordo com a sua largura”, explica, “e isso muito útil, mas, na sua maioria, são as empresas grandes que o usam. Se o cortador for fazer o processo manualmente, ele faz riscos no tecido – não é um processo tão certinho quanto no computador”. O processo manual pode acabar gerando mais perda por não conseguir chegar num encaixe otimizado.
O avanço exige conhecimento, pesquisa e investimento
Paralelo ao desenvolvimento e acessibilidade destes softwares, outra necessidade latente para o mercado brasileiro é o investimento em pesquisas. Célia Fernandes, coordenadora da pós-graduação de Modelagem Criativa do Senac-SP ressalta que um projeto de modelagem com diminuição de tecido, desde sua concepção, demanda tempo, investigação e experimentação.
Carmen também aponta que, para entender de sustentabilidade, é necessário conhecer a fundo todos os processos. “As pessoas têm muitas ideias sobre sustentabilidade, mas falta habilidade para implementação, e isso [o conhecimento] vem de muita pesquisa, de erro e acerto. Vem também de pessoas com dinheiro e que querem investir em sustentabilidade”, afirma. Somente fomentando a pesquisa e experimentação, a modelagem desperdício zero se tornará um critério básico em faculdades e no mercado.
Apesar das iniciativas engatinharem por aqui e a maioria da literatura mundial e estudos feitos em cima do tema possuírem menos de uma década, essa concepção de modelagem sem desperdício existe desde a época dos gregos, que trabalhavam com drapeados como forma de aproveitamento da matéria-prima. A técnica, porém, não evoluiu e ficou esquecida no tempo, sendo remetida a modelos clássicos, alongados, com estilo greco-romano. Segundo Célia, a necessidade de diminuir os resíduos, frente ao papel da moda no colapso climático e questões de sustentabilidade, trouxe esse conhecimento à tona, principalmente nas universidades internacionais. “Eles retomam essas técnicas, fazendo um novo estudo e, de novo, um movimento de exploração e sofisticação da modelagem”, reflete.
Para além da modelagem, é preciso aproximar os elos de produção
Para se criar uma modelagem com diminuição de resíduos é necessário, além dos estudos e profissionais capacitados, uma empresa disposta a descompartimentalizar os elos da produção. Hoje, a indústria da moda é fechada em blocos: o departamento de estilo não conversa com quem modela, que, por sua vez, não conversa com quem costura. E essa falta de conversação atrapalha o processo de redução de resíduo como um todo. “Muita gente, hoje em dia, desenha a peça, mas não sabe fazer a modelagem”, explica Célia, “e, então, desenha de um jeito que gera desperdício. Quem desenha tem que conversar com quem modela para entender os processos”.
Jorge destaca que o mercado peca em não fomentar um pensamento mais holístico sobre o processo produtivo, muitas vezes, focando na redução do resíduo apenas como forma de diminuir custos. “Mas como podemos melhorar isso? Melhorar o conhecimento de modelagem, das relações entre os profissionais do setor?”, questiona. O estilista reforça que uma das grandes questões dentro da indústria da moda sempre foi a falta de comunicação. E essa interação deve ir além de passar uma ficha de um setor para outro: “falta entender o que é o todo, conhecer o processo e qual a importância da pessoa naquela função”. As queixas de desentendimentos entre os setores, relata ele, vêm tanto das empresas quanto dos alunos nos locais que leciona.
A falta de comunicação gera uma disputa entre departamentos e a ruptura dos elos faz com que a costureira que prega bolso durante oito horas de trabalho só se preocupe em fazer sua função e ir embora para casa. “Ela não vê a peça pronta, não tem acesso ao desfile ou à loja da marca. Eu acho que fazer um dia de visita, levar um pessoal de um setor para visitar outro, para ver como funciona o trabalho do colega, ajuda esse mecanismo a funcionar de forma mais fluida”, conclui.